Relembrando mais uma ação fruto das parcerias, aqui com profissionais de Cajati em reunião na cidade de Registro/SP sobre a temática das pessoas com deficiência
quinta-feira, 7 de janeiro de 2021
Mais um trabalho realizado em 2019 com excelência para a Prefeitura Municipal de Pedro de Toledo e Depto de Assistência de Social.
sexta-feira, 23 de março de 2018
Como nossa sociedade mata a juventude – agora e no futuro
Por:
Beatriz Saks*
Violências
das mais diferentes formas que crianças e adolescentes sofrem ao longo
da vida impactam, sim, na conformação e na manutenção de trajetórias
infracionais
Mais um relatório aponta em números uma situação há muito conhecida
no Brasil: o país mata seus jovens. Realizado no contexto da Resolução
da ONU - Transformando Nosso Mundo: a Agenda 2030 para o Desenvolvimento
Sustentável, o estudo
foi elaborado pela Fundação Abrinq para analisar a condição atual de
crianças, adolescentes e jovens brasileiros, de forma a apoiar políticas
que poderão modificar a situação de marcada vulnerabilidade e violência
na qual a maior parte desse grupo vive.
O estudo aponta que, de cada seis pessoas mortas em 2015, uma tinha
até 19 anos de idade. Esse número mais que dobrou entre 1990 e 2015 - de
5.000 para 10,9 mil mortes. Especificamente em relação às mortes por
arma de fogo, crianças e adolescentes representam cerca de 20,7% do
total de vítimas. Ou seja, em 2015, uma em cada cinco pessoas mortas em
consequência de disparos de arma de fogo tinha menos de 19 anos, e eram,
em sua maioria, adolescentes acima dos 15 anos de idade.
O relatório traz outro dado conhecido: os atos infracionais cometidos
por adolescentes e jovens, em sua maioria, não são contra a vida. A
maior parte deles é qualificada como roubo (44,4% das infrações),
seguida pelo tráfico de drogas (6.350 ocorrências em âmbito nacional, ou
24,2% das infrações). Isso permitiria levantarmos a hipótese de que os
atos infracionais cometidos por eles promoveriam o acesso, ainda que
frágil e temporário, ao modo que mundialmente conhecemos de
pertencimento social: a aquisição de bens materiais e a possibilidade de
frequentar espaços sociais que aqueles com os quais nos identificamos
frequentam. Mesmo modo de viver, com diferentes formas de acesso.
Em entrevista por ocasião do lançamento do relatório, Heloisa
Oliveira, administradora-executiva da Fundação Abrinq, afirmou a
importância de tomarmos os indicadores associados à condição de
vulnerabilidade em articulação, uma vez que os adolescentes que cometem
atos infracionais (e, poderíamos acrescentar, que acessam o sistema de
Justiça) estão entre a população mais pobre e afetada pela falta de
acesso a direitos básicos – como saneamento básico e água potável. Se
não é determinante que aquele que sofre violações será, também, um
violador de direitos, o que as informações do relatório apontam, e as
experiências de trabalho que temos feito no Instituto Sou da Paz fazem
notar, é que, para crianças e adolescentes, as violências das mais
diferentes formas sofridas ao longo da vida, a desigualdade social
marcante e o não reconhecimento do valor de suas vidas impactam, sim, na
conformação e na manutenção de trajetórias infracionais.
Em relação às medidas socioeducativas, o relatório dá destaque a uma
espécie de afunilamento no tratamento oferecido aos jovens de
diferentes classes sociais, raça e gênero. E aponta, também, que, antes
que se determine uma relação causal entre pobreza e criminalidade, há
que se considerar renda e raça como fatores que tornam ainda mais
vulneráveis e estigmatizados determinados grupos de pessoas. Ou seja:
ser pobre e ser negro não leva à entrada do jovem no universo criminal,
mas esses fatores ampliam a condição de vulnerabilidade social. Tomados,
com frequência, pelo sistema de Justiça como indicadores de um
“potencial criminal” que estaria mais acentuadamente nesses adolescentes
do que nos brancos e pertencentes à classe média alta, esses fatores,
de acordo com o relatório, implicam um acesso desigual à Justiça e a
situações que promovem outras experiências de vida – mais saudáveis para
si e para suas comunidades.
Isso significa que uma rede de ações e determinados atores são mais
fortemente direcionados a atuar junto à população jovem, negra e pobre.
Podemos citar como exemplo a abordagem policial cotidiana a adolescentes
pobres e negros e a aplicação preferencial de medidas socioeducativas
de internação e semiliberdade (as únicas que significam a privação da
liberdade) a eles. A classificação de determinados adolescentes como
“suspeitos em potencial”, tão difundida na sociedade brasileira, se não
leva à execução do ato infracional, possui uma força simbólica que não
permite outras experiências. Ela soma-se, ainda, às condições
estruturais que, isoladas, produzem condições de vulnerabilidade: fome,
falta de moradia adequada, não acesso à educação escolar e ao trabalho
qualificado.
O Instituto Sou da Paz vem atuando há pelo menos dez anos com
infância e juventude em situação marcada de vulnerabilidade na cidade de
São Paulo. Há três deles, atua diretamente com adolescentes em
cumprimento de medidas socioeducativas e com profissionais que os
atendem. Os desafios que testemunhamos para o efetivo cumprimento da
medida socioeducativa são inúmeros – muitos deles apontados pela Abrinq.
Eles estão relacionados à responsabilização do adolescente, e, também,
ao que poderíamos descrever como seu desenvolvimento social.
Observamos que os adolescentes encontram dificuldades para transitar
no bairro e fora dele. Assim não conseguem ampliar seu repertório
cultural e de experiências desvinculadas ao universo criminal. A própria
comunidade tem medo e não consegue se relacionar com o jovem que passou
por medida socioeducativa de internação e, em muitos casos, o
cumprimento da medida é disputado com a maternidade, a paternidade ou o
emprego que precisam ser assumidos pelos adolescentes para sustento do
lar. É urgente fazer uso dos dados apresentados a fim de tornar ainda
mais clara esta fotografia sobre uma sociedade que, ao matar sua
juventude, elimina as chances de uma vida digna agora e no futuro.
Devemos tomar os dados em articulação a fim de se que saiba que somos
todos afetados por essa dura realidade, que pode e deve ser alterada.
___________________________________________
___________________________________________
*Beatriz Saks é coordenadora de projetos da área de Prevenção da Violência do Instituto Sou da Paz.
[Fonte: Nexo Jornal]
Melhor forma de combater a violência nas escolas é promover a paz
Por:
Macaé Evaristo*
É preciso compreender as causas das violências e adotar ações com vistas à convivência democrática na diversidade.
A escola pública é uma política de promoção da cidadania de caráter
universal, inclusivo. Isso implica uma educação provedora, acolhedora e,
sobretudo, transformadora para que o exercício pleno dos deveres e
direitos seja de fato uma conquista de todos.
Segundo a edição de 2016 do Mapa de Violência, jovens, no intervalo
de 15 a 29 anos de idade, representaram quase 60% das vítimas de
homicídios por arma de fogo no Brasil no período de 2003 a 2014, embora
essa faixa etária representasse não mais do que 27% da população total.
Também de acordo com o Mapa da Violência, a incidência de homicídios
entre pretos e pardos é quase o triplo da verificada na população
branca.
Os jovens negros também são os principais alvos da atividade policial
e do encarceramento no Brasil. Estudo do governo federal e do Programa
das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), com base em dados de
2012, revelou que 55% dos presos no país tinham menos de 29 anos de
idade e que se encarcerava 1,5 vezes mais negros do que brancos.
No mapa das cidades, os espaços onde mora a grande maioria dos nossos
jovens negros e pobres enfrentam deficiência crônica se não ausência de
serviços e equipamentos públicos. Apesar disso, os investimentos em
lazer, cultura, saneamento e urbanização continuam a ser carreados
predominantemente para as áreas mais abastadas das cidades.
Nesse contexto, a escola pública tem a missão de dar a esses jovens
educação de qualidade e também de lhes fornecer instrumental para buscar
todos os outros direitos, inclusive o direito à cidade e seus espaços,
serviços e equipamentos públicos.
Essa estratégia é essencial para o desenvolvimento de uma cultura de
paz. A escola pública, justamente por seu caráter transformador, deve
rejeitar práticas perpetuadoras de exclusão que, frequentemente, se
traduzem em criminalização dos nossos jovens mais carentes.
Em Minas Gerais, a Secretaria de Estado de Educação decidiu enfrentar
a violência nas escolas de uma forma abrangente e democrática,
rejeitando ideias preconceituosas como a que manda prender os suspeitos e
culpados de sempre.
No começo de 2017, foi criado o Programa de Convivência Democrática
nas Escolas. Apresentado em março em encontro de diretores e
supervisores pedagógicos das Superintendências Regionais de Ensino, tem
como propósito compreender e enfrentar as violências, reconhecer e
valorizar as diferenças e as diversidades no ambiente escolar, além de
incentivar a participação política da comunidade onde as escolas estão
inseridas, através de projetos e estratégias educativas.
Entre as ferramentas recomendadas estão assembleias e a aplicação de
práticas restaurativas. Os profissionais da rede estadual estão sendo
capacitados para que as escolas construam planos de convivência
democrática adequados às realidades locais e regionais e em harmonia com
seus planos políticos pedagógicos.
O programa acrescenta um novo sistema em rede de registro de
situações de violência que possibilitará a geração de relatórios com a
identificação de pontos críticos, para que se estude as intervenções
mais adequadas a cada situação. A SEE acredita estar dessa forma
contribuindo de forma mais efetiva e, porque não, mais inteligente para
promover a cultura de paz na nossa sociedade.
_______________________________________________
_______________________________________________
*Macaé é educadora, gestora de política educacionais e atualmente
está à frente da Secretaria de Educação de Minas Gerais. Escreve
quinzenalmente para o site Carta da Educação.
A gravidez na adolescência no Brasil
A luta pela igualdade de gênero se fortalece dia após dia. Porém,
apesar das conquistas serem grandes e a luta das mulheres ser
responsável pela diminuição da desigualdade e violência contra a mulher,
alguns pontos ainda merecem atenção por parte dos órgãos públicos. Na Semana Nacional de Prevenção da Gravidez na Adolescência,
chamamos a atenção para que a família, o Estado e a sociedade em geral
possam se mobilizar para garantir, conforme previsto no Estatuto da
Criança e do Adolescente, os direitos de adolescentes também quando
ocorre uma gravidez.
De acordo com a publicação, realizada em parceria com a Unicef, UNFPA e Indica, Gravidez na Adolescência no Brasil – Vozes de Meninas e de Especialistas,
existem dois posicionamentos encontrados na literatura o tema: um
concebe a gravidez na adolescência como problema social e o outro como
um fenômeno social. O primeiro, embora reconheça os fatores múltiplos
das causas, foca nas vulnerabilidades e nos riscos que sofrem uma
parcela das jovens gestantes. O segundo, embora reconheça os problemas
enfrentados com a gravidez, se concentra nos diversos fatores que levam
esse público a uma situação de gestação na voz dos adolescentes.
Desse modo, pensando no sentido de um fenômeno social, existem,
segundo a publicação, macrofatores que podem influenciar a gravidez na
adolescência, podendo ser considerados sozinhos ou conjuntamente como
causas ou motivos.
São eles:
- gravidez não planejada, causada pelo descompasso entre desejo sexual e o risco;
- gravidez desejada, como resultado da vontade de ser mãe;
- gravidez estratégica, utilizada como forma de mudança de status social;
- gravidez indesejada, resultante da violência sexual.
Sobre o perfil predominante de adolescentes entre 15 e 19 anos com
filho no país, é possível resgatar dados analisados em 2014 pelo IBGE.
São eles:
- 65% das garotas grávidas estavam no final da adolescência e início da juventude, tendo entre 18 e 19 anos de idade;
- 69% das meninas eram negras;
- 35% delas residiam na região Nordeste;
- 59% não trabalhavam nem estudavam, porém aproximadamente 92% delas cuidavam de afazeres domésticos;
- 37% das meninas estavam, enquanto estado civil, na condição de
filha na unidade domiciliar, outras 34% estavam na situação de cônjuge.
Tendo isso em mente, devemos ressaltar a importância da discussão
sobre a temática no sentido de incentivar, cada vez mais, o
aprimoramento de políticas públicas e programas que garantam os direitos
sexuais e reprodutivos de adolescentes.
A gestação adolescente não pode ser tratada de forma universalista
como um problema social, afinal, há todo um contexto social, cultural e
subjetivo das diversas adolescências brasileiras que implica em
vivências e significados diferenciados para cada gestação.
Por fim, como a publicação sugere, a coordenação dos esforços de
mobilização social, a qualificação de políticas públicas e o incentivo
aos estudos e pesquisas sobre o tema, são pontos essenciais para
garantir que adolescentes exerçam o direito de vivenciar sua sexualidade
de forma autônoma, afetiva, segura e responsável, com condições assim
de decidir, de forma consciente e acompanhada, sobre o papel da
maternidade e paternidade na vida delas.
Saiba mais sobre a publicação Gravidez na Adolescência no Brasil – Vozes de Meninas e de Especialistas clicando aqui.
Educação alimentar na infância e adolescência: ampliando o olhar
Por:
Felipe Jannuzzi*
Johann
Heinrich Pestalozzi, célebre educador e um dos pioneiros da pedagogia
moderna, preconizava que a educação deve estar centrada no
desenvolvimento integral “da mente, do coração e das mãos”, ou seja, o
raciocínio deve estar em equilíbrio com as emoções e o seu estado
físico.
Esta educação, no seu sentido global, ou seja, aquela que vai além
dos compêndios escolares e acadêmicos, reunindo os valores éticos da
família, das instituições, de pais e educadores, sempre acrescidos pela
força do exemplo, fortalecida por uma constante reflexão, torna-se vital
na construção de clareza quanto às questões envolvendo hábitos
alimentares na infância e adolescência.
Investir em saúde, por meio de uma nutrição saudável, é favorecer o
crescimento de crianças e adolescentes e, sobretudo, preservar vidas. O
ser humano é essencialmente resultado da educação.
Assim sendo, conversamos com Fernanda Gazolla, pediatra do Hospital Municipal Jesus, endocrinopediatra do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE-UERJ) e professora da Universidade Estácio de Sá,
que nos falou sobre cuidados e preceitos vitais para um desenvolvimento
pleno da criança. Vale a reflexão, sobretudo repensar os exemplos que
estamos gerando às futuras gerações.
BVS Adolec: Fale-nos, por favor, sobre pesquisas. Crescem os
índices de obesidade infantil… A prevalência é alta. Hoje, qual a real
situação e quais as projeções futuras?
Fernanda Gazolla – Atualmente, a obesidade é a
desordem metabólica mais comum do Ocidente. Estimativas globais recentes
mostram que 170 milhões de crianças e adolescentes foram classificados
com sobrepeso ou obesidade.
Segundo informações da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO), a Organização Mundial de Saúde
aponta a obesidade como um dos maiores problemas de saúde pública no
mundo. A projeção é que, em 2025, cerca de 2,3 bilhões de adultos
estejam com sobrepeso; e mais de 700 milhões, obesos. O número de
crianças com sobrepeso e obesidade no mundo poderia chegar a 75 milhões,
caso nada seja feito.
BVS Adolec: Sua especialidade cuida do desenvolvimento da
criança. Como hoje melhor dosar a oferta de conhecimento e aprendizado?
Fernanda Gazolla – A oferta ao conhecimento e ao
aprendizado não devem ser restritos somente à infância e à adolescência,
devendo fazer parte de todas as fases da vida de um indivíduo.
Porém, essa oferta deve ser iniciada desde a infância, pois é nesta
fase da vida que o aprendizado acontece com maior fluência, pois o
espírito está mais aberto ao aprendizado.
Para isso, é necessário o equilíbrio na dose ofertada de conhecimento
e aprendizado à criança e ao adolescente que, ao meu ver, só é
encontrado e construído, em um primeiro momento,por meio da
experimentação de provas e expiações no seio da família, da escola e do
convívio social na comunidade em que está inserido.
Se estas experimentações e provas não acontecerem de forma
equilibrada nestes três cenários, este indivíduo seguirá para a fase
adulta sem autonomia, com baixa estima, medos e inseguranças, e com
intempestividade, o que, com certeza, acarretará muitos problemas e
dificuldades que, se não corrigidos a tempo, poderão se transformar em
transtornos emocionais e psíquicos para àquele individuo na vida adulta.
“Saber o melhor caminho”
BVS Adolec: O que vem ocorrendo nos lares é que, em
considerável parte, pais e mães estão despreparados para enfrentar as
dificuldades do trabalho educativo e acabam por tomar atitudes erradas,
tanto na prevenção quanto na área terapêutica, para corrigir os
problemas que surgem. O que a medicina pode fazer nesse campo?
Fernanda Gazolla – Dentre os muitos significados e
conceitos, assim como as diversas etimologias e origens da palavra
medicina, me remeti a um deles, em especial, para responder a essa
pergunta: o ato ou conhecimento de “saber o melhor caminho” para algo.
Vocês devem estar surpresos, pois logo pensamos em medicina como o
ato de “curar” e “tratar” as doenças. Estes últimos fazem parte do largo
espectro de atos que constituem a medicina.
Na infância, o ato de auxiliar a família na escolha do “melhor
caminho”, nada mais é do que uma atitude de prevenção de diversos
comportamentos e hábitos que, na própria infância ou mais adiante, em
qualquer fase da vida daquele indivíduo, podem levar ao adoecimento do
corpo, da mente ou de ambos.
E o que medicina pode fazer para auxiliar na escolha do “melhor
caminho”? Fornecer as informações, os esclarecimento se o apoio
necessários para que a família vivencie e percorra esse caminho das
fases do desenvolvimento e crescimento daquele indivíduo com o preparo
necessário para a formação de um adulto saudável e livre das doenças do
corpo e da mente.
BVS Adolec: Novas mídias, novas tecnologias, a cada dia uma
novidade. Hoje, crianças e adolescentes ficam muitas horas em frente ao
computador, ao smartphone. Isso induz a uma alimentação
inadequada, muito alimento calórico, falta de exercícios… Como você vê
essa situação e o que pode ser feito pelos educadores e por instituições
para mudar essa dinâmica? Quais os caminhos alternativos para vencer a
obesidade infantil?
Fernanda Gazolla – As novas mídias e tecnologias são
parte integrante da vida atual e, a meu ver, como tudo em nossa vida,
necessitam ser dosados na quantidade de horas que ocupam a vida
cotidiana das crianças e adolescentes.
Assim, tanto os educadores como as instituições devem limitar o tempo
de uso dessas mídias e tecnologias, procurando utilizá-las mais no
ambiente escolar e nas atividades em grupo de forma educativa, para que o
tempo fora da escola seja aproveitado para a realização de atividades
lúdicas, com maior contato com a natureza e que estimulem um estilo de
vida mais saudável (alimentação e atividade física).
A limitação do tempo de uso dessas novas mídias e tecnologias
associada ao estímulo a um estilo de vida mais saudável são atitudes
fundamentais na “luta” contra a obesidade infantil.
O valor da integralidade
BVS Adolec: Acha importante que crianças e adolescentes tenham um atendimento multidisciplinar?
Fernanda Gazolla – Não só importante, mas
fundamental. E vou além… O atendimento não deve ser multidisciplinar e
sim, interdisciplinar; quando todos os profissionais envolvidos fazem as
suas avaliações, trocam suas impressões e traçam suas condutas em
conjunto. Existe uma comunicação e uma parceria entre os profissionais
que assistem àquela criança e adolescente, sendo a assistência feita de
forma integral.
A integralidade busca garantir ao individuo uma assistência à saúde
que transcenda a prática curativa, baseando-se em ações de promoção,
prevenção de agravos e recuperação da saúde, permitindo a percepção
holística do indivíduo, considerando o contexto histórico, social,
político, familiar e ambiental em que se insere.
Quando essa integralidade se dá, a chance de sucesso e de conquistas com certeza é muito maior.
BVS Adolec: Como, na prática do dia a dia, corrigir a alimentação?
Fernanda Gazolla – Hoje, sabemos que a alimentação
de um indivíduo e de sua família faz parte do grupo de atitudes
relacionadas ao comportamento, e a mudança de comportamento se viabiliza
por meio da educação.
A relação da criança e do adolescente com o alimento e com o ato se
alimentar, será determinada pela forma que a família os habituou; e é
nesse momento que a educação alimentar da família se faz de suma
necessidade, pois a criança se espelha e reproduz os ensinamentos,
comportamentos e exemplos que são dados pelo pais.
E em qual momento e de que forma a equipe interdisciplinar deve
intervir para a correção? Desde o pré-natal da mãe, se estendendo após o
nascimento a todas as consultas de acompanhamento de saúde daquela
criança. A intervenção deve ser dada a todos os componentes da família e
por meio da conscientização dos familiares e do exemplo de mudança na
sua própria.
Somos o que comemos?
BVS Adolec: Os grandes filósofos diziam “somos o que
pensamos”. Dentro de sua especialidade clínica, é correto dizer que
“somos o que comemos”?
Fernanda Gazolla – Como ressaltei anteriormente, a
nossa atitude perante a comida está relacionada a um padrão de
comportamento. E este comportamento alimentar está constantemente
suscetível ao ambiente familiar, que, na infância, se não for assistido
de forma preventiva, com certeza formará um adulto que “será o que
comeu”.
Assim, na infância, período em que o espírito encontra-se mais
acessível ao aprendizado, podemos mudar o curso dessa filosofia, pois
estes “pequenos”, ainda “estão o que comem”.
BVS Adolec: Por certo, todas as nossas relações são
educativas. Atitudes, palavras, comportamento… Tudo gera ressonância.
Como vê hoje nossa sociedade em geral? O que precisamos para um porvir
mais ditoso?
Fernanda Gazolla – Vejo uma sociedade como um barco
que se encontra à deriva no “mar”, que é a vida. E que necessita da
orientação dos “marinheiros”, que são as relações educativas, para que
alcance o destino final, que é a mudança dos padrões de comportamentos
que nos levam ao adoecimento do corpo e do espírito.
Precisamos da educação dos nossos padrões de comportamentos por meio
de relações educativas pautadas na disciplina, ética, respeito a nós
mesmos e ao próximo.
__________________________________________________
__________________________________________________
*Fonte: Felipe Jannuzzi – Jornalista, editor executivo da Revista Adolescência & Saúde, publicação oficial do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (NESA/UERJ) e colaborador da BVS Adolec Brasil.
Por que acabou a programação infantil de qualidade na TV aberta?
Isabella Henriques*
Sou
da geração que assistiu muita programação infantil de qualidade na tevê
aberta. Assistia o Bambalalão da TV Cultura, o Daniel Azulai, na
Bandeirantes, e as primeiras edições do Sítio do Pica-pau Amarelo, na
Globo.
Hoje sinto falta da programação infantil na tevê aberta, não
apenas por uma questão familiar, mas porque meu trabalho me faz refletir
muito sobre esse tema, na medida que estou à frente da área de Advocacy
do Alana, organização sem fins lucrativos que tem como missão Honrar a
criança.
Justamente por trabalhar com o tema da infância e da garantia e
promoção dos direitos da criança, acredito que o fim da programação
infantil na tevê aberta é, não só uma tristeza e uma verdadeira lástima,
mas inconstitucional, ou seja, contraria a mais alta norma na
hierarquia das nossas leis, a Constituição Federal.
No seu artigo 221, a Constituição diz que é obrigação da
radiodifusão no país promover conteúdo preferencialmente com finalidade
educativa, artística, cultural e informativa. Vale lembrar que as tevês
abertas são concessões do Poder Público, o qual permitiu que empresas
privadas, sob determinadas condições, administrassem esse espectro
comunicacional com a precípua finalidade de promover um serviço útil e
adequado à população para a garantia do seu direito à comunicação.
Infelizmente não é isso que vemos diariamente na tevê aberta. Não
só a expressiva diminuição da programação infantil é uma ilegalidade
rotineira. Também o são os programas policialescos que reincidentemente
violam direitos humanos. Assim como a quase inexistente
representatividade da população nessa que é uma mídia social de massa.
Mas esses e outros temas deixarei para um outro dia. Hoje a conversa é
mesmo sobre a programação infantil.
É comum atribuir-se esse declínio da programação infantil na tevê
aberta, chegando-se mesmo a falar no seu fim, à discussão sobre a
publicidade infantil – aquela que é dirigida às crianças e seria a única
fonte de financiamento da programação infantil. Nesse sentido não são
poucos que dizem ser a atuação de organizações da sociedade civil no
sentido de apoiar a proibição da publicidade infantil, assim como a
Resolução 163/2014 do Conanda – Conselho Nacional dos Direitos da
Criança e do Adolescente, as grandes causadoras desse mal.
Mas, certamente, não é essa a verdadeira razão de hoje termos tão
poucas opções de programação infantil na tevê aberta. Fosse isso não
haveria programação televisiva infantil em lugar algum porque a lei que
rege a tevê fechada infantil é a mesma que se aplica à tevê aberta no
que se refere à publicidade infantil e, todos sabemos, a tevê fechada
está repleta de programação infantil nesses canais.
O que acontece é uma escolha empresarial decorrente da diferença
dos negócios. A tevê aberta vive dos índices de audiência, quanto maior o
número de pessoas assistindo à programação, melhor para o negócio. A
tevê fechada, por sua vez, vive da segmentação do público: nos canais
infantis quer a audiência infantil, nos canais jornalísticos quer a
audiência adulta, nos canais de esportes radicais, quer a audiência
jovem e assim por diante.
Para uma tevê aberta que quer alcançar o maior número possível de
telespectadores, fazer um programa direcionado ao público infantil vai
contra a lógica do negócio. Nesse raciocínio, do negócio, da
lucratividade, é melhor trocar a TV Globinho para crianças pelo Programa
da Fátima Bernardes que se propõe falar com crianças e também com os
jovens, os adultos e os idosos.
Mas, para não perder por completo o nicho dos infantis, visando o
bem do negócio, vale a pena ter um canal infantil para, como diriam os
velhos juristas, ao arrepio da lei, fazer muita publicidade infantil,
ganhar triplamente, pela assinatura, pela publicidade e pelo
licenciamento dos personagens próprios. Com isso, só continuam a
apresentar programação infantil na tevê aberta as empresas que não
possuem canais segmentados ou os canais estatais como a TV Brasil – cuja
programação infantil é maravilhosa e vale a pena conferir – e a TV
Cultura, nossa velha conhecida pelas incríveis produções nessa área.
É tudo pelo negócio. Pelo dinheiro. Não o dinheiro para fazer a
produção audiovisual infantil – que pode ser obtido de várias formas e
não só pela publicidade – mas é o dinheiro do lucro das empresas. E
nossas crianças, de novo, ao largo da lei, sem ter garantidos os seus
direitos consagrados na Constituição Federal, especialmente no citado
artigo 221 e no 227, que trata da sua absoluta prioridade. No fim das
contas, a proibição da publicidade infantil é só uma desculpa: a mesma
empresa que diz que precisa cumprir a lei e não pode mais fazer
publicidade infantil na tevê aberta o faz descaradamente na tevê
fechada.
A discussão sobre o tema da proibição do direcionamento de
publicidade a crianças não é nova, tem estado na agenda pública
brasileira da última década. Esteve nas manchetes dos principais jornais
brasileiros, foi pauta de incontáveis programas de debate, esteve no
centro de inúmeras audiências públicas no Congresso Nacional, em
discussões em universidades por todo o país. Objeto de uma avalanche de
trabalhos acadêmicos, pesquisas e até livros, foi tema da redação do
ENEM em 2014. A seu propósito, pesquisa realizada pelo DataFolha, no ano
passado, apurou que 60% da população brasileira é totalmente favorável
ao completo banimento da publicidade dirigida às crianças.
É por trabalhar no âmbito da discussão da publicidade infantil há
mais de 10 anos que eu asseguro, de forma categórica, que a proibição
da publicidade infantil anda ao lado da programação infantil de boa
qualidade televisiva no âmbito da lei. Ambas são garantidoras da
integridade psíquica e dos direitos das crianças.
Daí a importância de que falemos mais a respeito de ambas e que
passemos a exigir uma programação televisiva de qualidade para crianças
também na tevê aberta que fala diariamente com a quase totalidade das
milhões de crianças no país. Sem que, para isso, seja necessário
violar-se o direito das crianças de verem-se livres da publicidade
comercial.
*Isabella Henriques é advogada e diretora de Advocacy do
Instituto Alana. É mestre em Direitos Difusos pela PUC-SP e autora do
livro "Publicidade abusiva dirigida à criança" (Ed. Juruá).
Assinar:
Postagens (Atom)
Participação e entrevista no Programa Exporte Vale, contei toda a história do Conselho neste programa !!!
PARA ASSISTIR O VÍDEO NA ÍNTEGRA BASTA CLICAR NA IMAGEM E FAZER O LOGIN NO FACEBOOK
-
Quatro dicas sobre o uso de internet por crianças e adolescentes Diálogo aberto é sempre o melhor caminho em tudo que se refere à segu...
-
Por: Felipe Jannuzzi* Johann Heinrich Pestalozzi, célebre educador e um dos pioneiros da pedagogia moderna, preconizava que a ...
-
Por: Beatriz Saks* Violências das mais diferentes formas que crianças e adolescentes sofrem ao longo da vida impactam, sim, ...


